
Este artigo é atualizado semanalmente às terças-feiras para trazer a análise técnica do Bitcoin e do mercado de criptomoedas. Você sempre verá:
Compre Bitcoin e criptomoedas na Coinext
Bitcoin encerrou a última semana com o maior salto semanal desde março de 2023, enquanto o Ethereum atingiu uma máxima de sete meses, mas o pano de fundo macroeconômico segue mais tenso do que a euforia recente sugere. Sob a liderança de Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) em maio de 2026, o comitê monetário manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% pela quinta reunião consecutiva, em decisão tomada por votação de 9 a 3. O detalhe relevante está na natureza das dissidências: os três votos contrários não pediam corte, e sim alta de 0,25 ponto percentual, o que evidencia uma ala mais dura dentro do comitê em um momento em que o mercado já vinha precificando maior flexibilização.
O tom mais rígido também aparece na comunicação do próprio Warsh, que desde julho defende que o Fed deveria interferir menos nos preços de mercado e deixar que rendimentos de títulos, câmbio e ativos de risco sinalizem por si só as condições financeiras. Ainda que Warsh seja pessoalmente favorável ao Bitcoin, sua postura histórica de defesa de juros reais mais altos e de um balanço patrimonial do Fed mais magro tende a ser um vetor de cautela para ativos de risco no médio prazo, ainda que a reação de curto prazo do mercado cripto tenha sido de otimismo.
O gatilho da última semana veio, na prática, do mercado de títulos, e não da política monetária declarada. Uma intervenção do Tesouro americano reduziu os rendimentos dos títulos de forma abrupta na quarta-feira, aliviando o apetite por risco e enfraquecendo o dólar. O movimento se somou ao avanço da tramitação do Clarity Act, a lei de estrutura de mercado para criptoativos, cuja votação no Senado foi remarcada para 15 de setembro após não avançar antes do recesso de agosto. Juntos, esses dois fatores ajudaram a destravar uma reversão técnica que já vinha sendo represada por semanas de posicionamento vendido excessivo.
Do lado da inflação, o quadro permanece misto. O núcleo do CPI (índice de preços ao consumidor) de julho recuou a 2,5% ao ano, a menor leitura desde março de 2021, favorecendo a leitura de desinflação gradual. Por outro lado, o PPI (índice de preços ao produtor) do mesmo mês avançou 4,4%, sugerindo pressão de custos na cadeia produtiva que ainda não foi repassada ao consumidor final. O mercado de trabalho, por sua vez, segue relativamente resiliente: os pedidos semanais de auxílio-desemprego caíram para 206 mil na segunda semana de agosto, abaixo das expectativas de 210 mil, com o número de pedidos continuados recuando para 1,777 milhão.
Confira o que marcou o mercado macroeconômico:
O CNN Fear & Greed Index, que mede o sentimento dos investidores no mercado acionário americano, está em 55 pontos, na zona "Neutra". A leitura pouco mudou em relação ao dia anterior, de 54,5 pontos, e reflete um mercado que segue otimista com as máximas históricas do S&P 500, mas sem o entusiasmo extremo característico das fases de "Ganância Extrema".
A estabilidade do índice em território neutro, mesmo após um rali acionário consistente, sugere que parte dos investidores tradicionais ainda mantém cautela diante da postura mais dura do Fed sob Warsh e da indefinição sobre o ritmo de juros para o restante do ano.
O DXY (índice do dólar, que mede a força do dólar americano frente a uma cesta de moedas fortes) recuou a 98,55 pontos no dia 22 de agosto, a mínima desde maio, antes de se estabilizar perto de 98,96 nesta terça-feira. No acumulado do último mês, o dólar perdeu 2,54% de valor, pressionado pela combinação entre a intervenção do Tesouro no mercado de títulos e a divisão interna do Fed em torno do ritmo de juros.
Para o mercado cripto, a implicação é direta: um dólar mais fraco tende a facilitar o apetite por ativos de risco denominados em dólar, incluindo Bitcoin e Ethereum, já que reduz o custo de oportunidade de manter posições fora da moeda americana. A maioria dos grandes bancos projeta o DXY operando entre 92 e 100 pontos no segundo semestre de 2026, com viés de enfraquecimento adicional caso o Fed sinalize cortes mais adiante.
O dado mais relevante da semana é o PCE de quarta-feira, por ser a métrica de inflação oficialmente acompanhada pelo Fed para calibrar sua política monetária. Como o comitê já demonstrou, na última reunião, maior tolerância a um cenário de juros estáveis ou até mais altos, uma leitura de núcleo acima da estimativa de 3,2% ao ano tende a reforçar a postura mais dura de Warsh e a reduzir ainda mais a já remota probabilidade de corte em setembro, hoje em 0% segundo o CME FedWatch.
Já uma surpresa para baixo poderia reabrir, ainda que marginalmente, o debate sobre flexibilização, favorecendo ativos de risco no curto prazo. O discurso de Warsh em Jackson Hole, na sexta-feira, tende a ser o evento de maior potencial de movimentação de mercado da semana, dado que será sua primeira comunicação estruturada sobre política monetária desde que assumiu o cargo.
O dado mais relevante da semana é a ata do FOMC, divulgada na quarta-feira, que deve detalhar o grau de divergência entre os membros do comitê sobre o ritmo da política monetária e funcionar como uma prévia do tom que o presidente Kevin Warsh deve adotar no Simpósio de Jackson Hole, marcado para o fim de agosto.
Qualquer sinalização mais dura, motivada pelo risco inflacionário do petróleo, tende a pressionar ativos de risco, incluindo Bitcoin e Ethereum, enquanto um tom mais equilibrado poderia aliviar parte da cautela recente.
O S&P 500 renovou máximas históricas na última semana, superando os 7.800 pontos e chegando a uma máxima intradiária de 7.814,88, impulsionado pela combinação entre dados de inflação mais fracos que o esperado no início de agosto e resultados robustos de empresas ligadas à inteligência artificial. O índice já fechou em máxima histórica 25 vezes ao longo de 2026.
Manutenção do fluxo positivo para ações de tecnologia e confirmação de PCE dentro ou abaixo da estimativa abrem espaço para o índice testar a região entre 7.900 e 8.000 pontos nas próximas semanas.
Consolidação entre 7.600 e 7.800 pontos, com o mercado avaliando o discurso de Warsh em Jackson Hole antes de assumir novas posições direcionais.
Uma leitura de PCE acima do esperado, somada a um tom mais hawkish de Warsh, poderia provocar correção até a faixa entre 7.300 e 7.450 pontos, região que serviu de suporte em movimentos anteriores no mês.
A capitalização total do mercado de criptomoedas está em aproximadamente US$ 2,75 trilhões, com alta de cerca de 2% nas últimas 24 horas e volume de negociação diário de US$ 125 bilhões. O Bitcoin responde por cerca de US$ 1,6 trilhão desse total, com dominância de 58,1%, enquanto o Ethereum concentra 10,9% da capitalização total. Do ponto de vista estrutural, a faixa entre US$ 2,4 trilhões e US$ 2,6 trilhões funciona como suporte para a capitalização total, enquanto a região entre US$ 2,85 trilhões e US$ 3 trilhões representa a próxima resistência relevante, patamar não testado desde o início do ano.
O fluxo institucional segue como o principal sustentáculo do movimento recente. Os ETFs de Bitcoin à vista captaram US$ 1,92 bilhão entre os dias 17 e 21 de agosto, a maior entrada semanal em quase dez meses, com a IBIT, da BlackRock, respondendo isoladamente por US$ 1,33 bilhão, o equivalente a 69% do total captado no período. O dia 20 de agosto concentrou a maior captação diária em mais de três meses, com US$ 606,3 milhões.
O movimento não se limitou à última semana. Nesta segunda-feira (24/08), os ETFs de Bitcoin somaram US$ 337,56 milhões em novas entradas, marcando o sexto dia consecutivo de captação positiva e acumulando mais de US$ 2,5 bilhões no período. A persistência do fluxo, distribuída ao longo de seis pregões e não concentrada em um único dia, é o principal argumento a favor da leitura de que parte da demanda atual vem de investidores institucionais reposicionando carteiras, e não apenas do fechamento técnico de posições vendidas que caracterizou o início do rali.
O Bitcoin encerrou a última semana com alta de aproximadamente 22%, o maior ganho semanal desde março de 2023, ao romper em sequência as faixas de US$ 65 mil, US$ 70 mil e US$ 75 mil. O movimento teve como estopim uma liquidação forçada de posições vendidas, que somou mais de US$ 2,7 bilhões em contratos futuros ao longo de dois dias, acelerada pela queda dos rendimentos dos títulos americanos e pelo avanço da tramitação do Clarity Act no Senado.
Do ponto de vista técnico, o ativo recuperou a média móvel de 50 semanas, hoje próxima de US$ 81 mil, pela primeira vez desde novembro de 2025, um sinal historicamente associado à reversão de tendência de médio prazo. O preço chegou a tocar uma máxima intradiária de US$ 81.200 nesta terça-feira, mas foi rejeitado ao testar essa região, o que reforça a necessidade de um fechamento semanal consistente acima de US$ 81 mil para validar a retomada da tendência de alta. O RSI (índice de força relativa) diário está na faixa de 82 a 83 pontos, bem acima do patamar de 70 convencionalmente associado a condições de sobrecompra, o que sugere espaço reduzido para continuidade imediata do movimento sem uma pausa ou correção de curto prazo. Ainda assim, o fato de o preço se manter apoiado sobre o conjunto de médias móveis de curto prazo indica que o momentum de fundo permanece intacto por ora.
Caso o rompimento de US$ 81 mil se confirme com fechamentos consistentes, o próximo alvo técnico se desloca para a região entre US$ 85 mil e US$ 88 mil. Uma rejeição prolongada, por outro lado, devolveria o foco para o suporte entre US$ 74 mil e US$ 77 mil, faixa que serviu de base para boa parte da recuperação da última semana.
Na Deribit, principal praça de derivativos de criptoativos, o open interest (total de contratos em aberto) de opções de Bitcoin está próximo de US$ 58 bilhões, refletindo o aumento de posicionamento em torno da recente disparada de preço. As opções de compra (calls) respondem por 59,37% do open interest total, uma proporção que indica viés predominantemente otimista entre os participantes do mercado de opções.
O max pain, nível de preço em que a maior parte dos contratos de opções expira sem valor, favorecendo os vendedores dessas posições, está posicionado perto de US$ 78 mil para o vencimento de 25 de agosto, deslizando para próximo de US$ 70 mil no vencimento de 28 de agosto. Entre as maiores posições em aberto, destacam-se a call de US$ 70 mil com vencimento em 25 de setembro, com 11.037,4 BTC em contratos, e a call de US$ 80 mil com vencimento em dezembro, com 8.749,3 BTC. A concentração de calls em faixas de preço relativamente próximas ao valor atual do ativo sugere que parte do mercado de derivativos já precifica a continuidade do movimento de alta no curto e médio prazo, embora a proximidade do max pain com o preço à vista também abra espaço para maior volatilidade em torno dos vencimentos semanais.
A dominância do Bitcoin sobre o mercado cripto total está em torno de 58% a 60%, patamar ainda distante da referência de 55% que analistas costumam apontar como pré-condição para uma rotação relevante de capital para as altcoins. O Altcoin Season Index, que mede o desempenho relativo das principais altcoins frente ao Bitcoin em uma janela de 90 dias, está em torno de 47 pontos em uma escala de 0 a 100, valor ainda distante do patamar de 75 pontos considerado o limiar para caracterizar uma altseason.
Ainda assim, há sinais mistos que merecem monitoramento. A relação ETH/BTC subiu cerca de 25% desde a mínima de junho e recentemente formou um cruzamento técnico ascendente (golden cross), padrão que, em ciclos anteriores, antecedeu períodos de rotação de capital do Bitcoin para o Ethereum e para outras altcoins de maior capitalização. Para que essa rotação se confirme de forma mais ampla, no entanto, seria necessário observar uma queda mais consistente da dominância do Bitcoin abaixo de 55%, algo que ainda não está em curso.
O Ethereum acompanhou o movimento do Bitcoin e chegou a tocar uma máxima de sete meses nesta semana, sustentando-se acima de US$ 2,5 mil após romper a resistência psicológica que vinha limitando o ativo desde o início do ano. Do ponto de vista técnico, a faixa entre US$ 2,55 mil e US$ 2,6 mil funciona como a primeira resistência relevante, seguida pela região entre US$ 2,88 mil e US$ 2,9 mil. No lado dos suportes, a faixa entre US$ 2,4 mil e US$ 2,45 mil atua como primeira linha de defesa, com o suporte secundário entre US$ 2,2 mil e US$ 2,25 mil. O ativo negocia bem acima da média móvel de 200 dias, hoje próxima de US$ 2 mil, o que preserva a leitura de tendência de alta no horizonte mais amplo.
O fluxo institucional reforça a leitura construtiva. Os ETFs à vista de Ethereum captaram US$ 697,2 milhões entre os dias 17 e 21 de agosto, a maior entrada semanal do ativo em todo o ano de 2026, com a ETHA, da BlackRock, concentrando US$ 536,8 milhões do total, seguida por FETH, da Fidelity (US$ 56,2 milhões), ETHB (US$ 55,6 milhões) e o fundo da Grayscale (US$ 30,3 milhões).
No ecossistema, o valor total bloqueado (TVL) em protocolos de DeFi (finanças descentralizadas) na rede Ethereum está em cerca de US$ 41,8 bilhões, alta de 7,8% nos últimos 30 dias, uma recuperação parcial frente à queda mais ampla do TVL de DeFi ao longo de 2026, que passou de aproximadamente US$ 115 bilhões em janeiro para algo perto de US$ 70 bilhões a US$ 76 bilhões em todas as redes combinadas. A retomada gradual do TVL no Ethereum acompanha o apetite renovado por ativos de risco na última semana, embora ainda esteja distante dos patamares do início do ano.
No campo de desenvolvimento, a atualização Glamsterdam, considerada a mais relevante da rede desde a fusão com a camada de consenso, segue em preparação técnica, com ativação em mainnet agora projetada para o quarto trimestre de 2026. As duas propostas centrais do pacote são o EIP-7732, que institucionaliza a separação entre propositores e construtores de blocos (ePBS) e pode reduzir a extração de valor via MEV em até 70%, e o EIP-7928, que viabiliza processamento paralelo de transações por meio de listas de acesso em nível de bloco e deve elevar o limite de gás de 60 milhões para 200 milhões, com o objetivo de aproximar a rede de 10 mil transações por segundo. Um terceiro pacote de reprecificação de gás, ainda em discussão, pode reduzir as taxas da camada base em cerca de 78,6%. Para o Ethereum, a consolidação dessas mudanças ao longo do segundo semestre tende a ser o principal vetor fundamental de médio prazo, com potencial para atrair de volta parte da atividade de DeFi que migrou para outras redes durante o período de contração do TVL.
Análise produzida pela equipe Coinext com base em dados públicos de mercado. Não constitui recomendação de investimento. Criptomoedas são ativos de alto risco — invista apenas o que está disposto a perder.







